DOM JOÃO PEDRO DOS PASSOS SJ-M
"A mulher samaritana, que veio tirar água ao meio-dia, significa a alma ardente de desejos terrenos; mas, iluminada por Cristo, torna-se pregadora da luz." — Catequese de São Beda
Vivenciamos o 3° Domingo da Quaresma, domingo este que se é conservada a tradição de iniciar a preparação dos catecúmenos que irão receber o batismo na Vigília Pascal, a partir destes domingos até o final do período Quaresmal, iremos escutar evangelhos que nos trazem os símbolo do batismo, lembrando de nossa vida em Cristo. A água é o símbolo deste domingo, ao olharmos para a Samaritana em busca desta água, vemos tantos adultos que se arrependeram de suas vidas passadas, de pecado, iluminados e convertidos pela fé e serão mergulhados na água, fonte de salvação e graça. Eles buscam de fato a água viva.
O senhor nos chama a segui-lo fielmente, a Quaresma é um tempo destinado a conversão, no último Sábado escutamos o Evangelho da Parábola do Filho Pródigo, que pede a herança de seu pai e gasta tudo com uma vida de desejos e seduções mundanas, os vícios, a vida desenfreada, tudo obra do buscar um prazer, uma felicidade, mas a reflexão que cabe a nós, justamente é que, como Filhos de um pai que nos ama, que sacrificou seu único filho por amor ao mundo é: de fato, estou vivendo uma verdadeira felicidade? Ou estou me entregando aos prazeres da carne para buscar uma alegria momentânea, assim desvalorizando todos os princípios cristãos? O filho pródigo, reconheceu seu erro e retornou para a casa com um coração sinceramente convertido, disposto a mudar. Mas e eu? Que digo que sou cristão? Estou disposto a mudar? A de fato, ir atrás de felicidade verdadeira, que é viver com nosso Senhor? Viver na luz de Cristo é o único caminho de felicidade, pode até parecer difícil, pesado e doloroso, mas isso é passageiro, assim como os prazeres, as dores do mundo também são passageiras. Mas a salvação dada por Cristo a nós, ela é eterna, assim como seu amor, está de braços abertos e festa preparada nos esperando.
Assim, hoje olhamos duas figuras, Jesus que tem sede em converter a samaritana e a Samaritana que deseja a água viva que Jesus ofereceu a ela. A missão evangelizadora de Jesus, o leva para a Samaria, de fato Judeus e Samaritanos não se dão bem, mas observamos ao longo do diálogo, o quanto Jesus quer romper barreiras e preconceitos para assim converter uma mulher, um povo.
Pelos sacramentos da iniciação cristã, o homem recebe a vida nova de Cristo. Ora, esta vida, nós trazemo-la «em vasos de barro». Por enquanto, ela está ainda «oculta com Cristo em Deus» (Cl 3, 3). Vivemos ainda na «nossa morada terrena» (1), sujeita ao sofrimento à doença e à morte. A vida nova de filhos de Deus pode ser enfraquecida e até perdida pelo pecado. — Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 1420
Voltemos o olhar para a Mulher samaritana, o que levava ela para um poço, justo ao meio dia? Talvez, queria se esconder da população por vergonha de seu passado que é revelado ao longo do Evangelho, vemos uma mulher “da vida” que justamente para satisfazer as vontades egoístas da carne, pecou com desejos terrenos que não saciam, buscando preencher vazios existenciais com relacionamentos ou convenções sociais que deixam a alma “seca”. Ela ao se dirigir ao poço, construído pelo patriarca que para garantir a água à sua família e a história da salvação na qual Deus dá à humanidade a água que jorra para a vida eterna, se depara com um judeu que pede a ela de beber, de início parece até um pedido bobo, mas analisando teologicamente e o contexto de toda a passagem, Jesus não pede água para beber, sua sede é da conversão da mulher.
Esta é a imagem da fraqueza de Jesus cansado do caminho. O seu caminho é a carne que tomou para nós. Que outro caminho havia de tomar Aquele que está presente em toda a parte? Aonde vai e de onde vem, senão a habitar entre nós, pois para isso encarnou? Com efeito, Ele dignou-Se vir até nós para Se manifestar na forma de servo, e o caminho que escolheu foi o de tomar a nossa carne. Daí que a «fadiga do caminho» mais não seja do que a fraqueza da carne. Jesus é fraco na sua carne, mas tu não deves deixar-te enfraquecer. Permanece forte na sua fraqueza, pois «o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens» ( 1Cor 1,25). A fraqueza de Cristo é a nossa força. — Catequese de Santo Agostinho
O Diálogo continua até Jesus se apresentar como a verdadeira fonte de água, quem dela beber nunca mais terá sede, uma água que jorra para a vida eterna, certamente a Samaritana pede desta água a Jesus, manifestando a necessidade da presença de Deus em nossas vidas, presença essa que só Jesus pode satisfazer. Através da água do batismo, podemos assim viver eternamente ao lado de nosso Senhor. Com o aprofundamento da conversa, percebemos que Jesus quer realizar grandes mudanças na vida da Samaritana e ressuscitar o Dom da fé em seu coração. Jesus pergunta sobre seu marido, tocando em um assunto que para a mulher, parece sensível, mas necessário para fazê-lá reconhecer seu erro, assim falando a verdade, renuncia o pecado e abre as portas para a luz da verdade em sua vida.
Quando, por meio de vós, mostrar minha santidade, eu vos tomarei dentre as nações. Haverei de derramar sobre vós uma água pura, e de vossas imundices sereis purificados; dar-vos-ei um novo espírito e um novo coração, diz o Senhor. — Ez 36,23-26
Jesus faz um apelo, sobre a verdadeira adoração, que não devem se prender em superstições, amuletos ou à lugares, mas Jesus anuncia que a verdadeira adoração é em Espírito e verdade, onde de fato iremos adorar uma pessoa, não a algo ou alguém distante, mas uma pessoa que está ao nosso lado, vive conosco, caminha conosco, que fala e que escuta, iremos adorar de fato uma pessoa que conhecemos, essa pessoa revelada, Jesus é o salvador, o Messias esperado pelo povo, em que povo ora pela sua vinda. Ele está ensinando todas essas coisas para que não vivamos no erro dos antepassados, mas para provocar uma mudança interior, uma reforma espiritual, para que de fato Deus seja adorado de coração, em verdade e unidos em um só espírito. A mulher que inicialmente o chama de profeta, agora o reconhece como o Cristo, prometido.
Na verdade, sois, Senhor, o salvador do mundo. Senhor, dai-me água viva a fim de eu não ter sede! — Antífona de aclamação, Jo 4,42.15
O diálogo se encerra, mas o coração daquela samaritana não é mais o mesmo, esse coração palpita pela força da fé, ela foi abastecida pela água da salvação, de fato Jesus se saciou, os discípulos pedem para ele comer, mas ele recusou alegando já estar saciado, eles pensavam que ele comeu algo, ainda não entendiam de fato o alimento do Senhor, foi preciso esclarecer: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”. Jesus ainda em diálogo com seus apóstolos, impulsiona eles a fazerem o mesmo, se alegrarem pela salvação do outro, plantarem para depois colher os resultados e se alegrar, se saciar pelo trabalho feito. A missão dada por Jesus é Ide, anunciar a todos, provocar a conversão, reacender a chama do Espírito Santo apaga pelo pecado e assim se alegrarem pela salvação do irmão. Tudo o que eles plantarem, irão colher. E quem plantou irá merecer seu salário.
Deus Pai enviou-o para saciar a nossa sede de vida eterna, concedendo-nos o seu amor, mas para nos oferecer esta dádiva, Jesus pede-nos a nossa fé. A omnipotência do Amor respeita sempre a liberdade do homem; bate à porta do seu coração e aguarda com paciência a sua resposta. — Ângelus de 27/03/2011 Pp. Bento XVI
Ao final do evangelho, a mulher samaritana que passou da cegueira espiritual para a luz da verdadeira adoração, transformou sua vergonha em coragem e testemunhou ao povo samaritano as maravilhas que Jesus disse a ela. Ela ao deixar seu cântaro de lado, faz memória que sua antiga busca, por desejos mundanos findou, agora é uma pessoa renovada pela água viva de Jesus. Agora os Samaritanos pedem para Jesus ficar com eles, a mesma luz que Jesus passou a ela, ela repassa agora por onde anda. O mais tocante é a última frase do Evangelho, quando o povo samaritano não acredita mais em Jesus por causa dela, mas porque de fato experimentaram da água viva dada por Jesus, foram inflamados pelo fogo do amor de Deus, de fato o reconhecem como o Salvador do mundo.
Cada um de nós pode identificar-se com a mulher samaritana: Jesus espera-nos, especialmente neste tempo de Quaresma, para falar ao nosso, ao meu coração. Permaneçamos um momento em silêncio, no nosso quarto, ou numa igreja, ou num lugar afastado. Ouçamos a sua voz que nos diz: “Se conhecesses o dom de Deus…”. — Ângelus de 27/03/2011 - Pp. Bento XVI
O Evangelho nos chama agora a conversão, rever a nossa vida, Jesus tem sede de nossa fé e de nosso amor, como um pai amoroso deseja nosso bem e proteção. Ele anseia para que cada vez mais nosso coração se inflame na verdadeira adoração, em espírito e verdade.
Agora, a mulher representa a busca incessante do homem para satisfazer suas próprias vontades, seus prazeres, talvez acham algum refúgio no pecado que cometem, ela casou 5 vezes e ainda vive uma união irregular, e ainda foi ao poço para buscar água, representando uma busca repetidamente por algo que não encontra. Ao encontrar este homem que só queria seu bem e estava sedento por sua fé, abre seu coração a verdade e volta a pulsar firmemente sua fé. Tudo mudou para ela naquele dia, ela encontrou o que ela sempre procurava. Assim ela renunciou aos seus desejos mundanos, tudo aquilo que para a carne, a alegrava e abraçou a fé, a adoração verdadeira, aderiu de fato a salvação como único caminho de vida.
Daquele que beber da água que eu darei, diz o Senhor, brotará uma fonte que jorra para a vida eterna. — Antífona da Comunhão, Jo 4,14
São Paulo, diz a comunidade dos Romanos, que somos justificados pela fé, essa fé nos foi apresentada por Jesus Cristo, por ele tivemos acesso a salvação, por seu grande amor a humanidade, por sua entrega como Cordeiro de Deus que tira todo o pecado do mundo, ele morreu por justos e injustos, nós não teríamos coragem de morrer nem mesmo por quem amamos e por justos, por isso a maior prova do seu amor, de sua consideração por nós, foi ter morrido por nós, quando ainda éramos pecadores, errantes, injustos, ímpios. Ele não olhou nossa condição, ele apenas carregou sobre si, nossas dores e pecados e por seu sacrifício herdamos a salvação, se acreditarmos verdadeiramente e mudarmos de vida.
Com efeito, quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelo ímpios, no tempo marcado. — Rm 5, 6
É preciso mudança meus irmãos! Mudança já! Não sejamos igual ao povo no deserto, tentando a Deus por causa de nossas fraquezas e desejos da carne, o povo pedia água, mesmo murmurando, mesmo duvidando, mesmo diante da ingratidão, Deus fez jorrar água para matar a sede humana do povo no deserto, Moisés fere a Rocha e dela sai a água para o povo, Deus mesmo observando as nossas reclamações e pecados, nos ama e nos dá conforme pedimos, mas é preciso uma mudança!
Deixemos os antigos hábitos, deixemos o cântaro de lado, deixemos o pecado, as seduções, dos desejos desenfreados pela satisfação ou pela felicidade mundana, e mergulhamos no amor e na misericórdia de nosso Senhor que nos ama infinitamente e que está de braços abertos para nos acolher. Busquemos a conversão! Busquemos a mudança de vida sincera! Vamos atrás da água viva que jorra para a vida eterna, que nosso Senhor nos oferece. Busquemos o amor!
Que ao final deste período Quaresmal possamos de verdade abrir o coração à conversão e adorar a Deus em espírito e verdade, deixemos a antiga vida de pecado e erro e nos banhe os nas fontes batismais da salvação do Senhor.
Que Deus abençoe a todos nós, que vivendo esse caminho Quaresmal possamos de verdade nos converter e evangelizar, para mais conversões. Amém.
Que a sempre vigem Maria a senhora da Boa Viagem interceda por cada um de nós, e peçamos a intercessão dos Santos para que nos ajudem a viver este tempo de penitência, para que um dia, possamos participar do banquete celeste preparado para nós.
Com carinho, amor e bênção,

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